É nestas alturas em que dói mais. Nestas em que se decide ser forte e meter tudo para traz, em não dar espaço a mais sentimentos de culpa, mais noites sem dormir, mais dias sem conseguir pensar em mais nada. Nestas em que se jura “nunca mais”. Mas parece que é pior. É como se fosse automático. Ainda nem se acabou de concretizar esta ideia no pensamento, e logo se esta envolto nas sombras que, um dia, foram mais que isso. E logo deixam de ser sombras. Mergulha-se nas próprias memórias, e de novo se revive tudo. As palavras voltam a ser musica para os ouvidos, as imagens voltam a ser arte aos olhos, os cheiros voltam a encher o interior e aqueles toques, aqueles gestos voltam a ser o bilhete de ida ao paraíso. A prosa foi, e volta a ser, a mais bela poesia. E agora? O desejo do “nunca mais” desaparece, esmagado pelas memorias que, parecendo que não, são fonte de alimentação num mundo em que mais nada parece ter o poder de matar aquela fome. Já não se quer ser forte. Quer-se voltar atrás e mudar algo que sempre foi, e ainda continua a ser, perfeito na memória. E tudo porque, quando a prosa volta a ser poesia o desespero do “nunca mais” é a imagem do erro que nunca poderia ter sido cometido. E mesmo que esse erro nunca tenha existido estas alturas continuam a ser aquelas em que tudo dói mais.
terça-feira, 22 de abril de 2008
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